É... não consegui ficar muito tempo longe... esse blog é minha terapia alternativa, sem escrever eu surto, e acho que foi isso que aconteceu...
Não vou entrar em detalhes, só vou dizer que é muita pressão...
Estou me sentindo pressionada de muitas maneiras, não pressionada por minha família, por algum relacionamento, por meu trabalho, pela faculdade... estou sendo pressionada de muitas maneiras por mim e essa é a razão de estar sendo difícil de suportar... Quando alguém ou algo te pressiona a tendência é afastar da origem da pressão, certo?
Mas e quando é você quem se pressiona?
Tem como fugir de você?
Não, não tem!
Eu sempre gostei de trabalhar: fato
Eu sempre abominei gente que fica dormindo e quando vê a vida passou.
Eu já estou com 3o anos, não tenho mais tempo pra mimimi e admito, nem paciência... nunca tive, na verdade.
Só que agora eu tenho 30 anos e mesmo fazendo tudo que eu quis, minha vida inteira, cada vez mais percebo que o que eu fiz foi dormir acordada, dormir andando, dormir fazendo faculdade, dormir fazendo pós-graduação, dormir fazendo sexo, dormir namorando, dormir sendo amiga, dormir trabalhando, dormir cozinhando, enfim... só dormi.
30 anos dormindo.
E aí acontece uma coisa muito ruim e a pessoa acorda e pensa: cara, que que eu to fazendo?
Naquela tarde de domingo, quando eu estava voltando pra casa com o Paquito e minha irmã ligou dizendo que meu primo tinha morrido num acidente estúpido, comecei a sentir a pressão.
Sabe, eu sou a mais velha. A neta mais velha, a primeira neta, filha da primeira filha, aquela que deveria ser o exemplo. Fui o exemplo. O exemplo de tudo que não se deve ser. Fui expulsa de casa algumas vezes, fiz muita merda nessa vida, fiz muita gente infeliz e sei que nem o 'amor de família' suportou muita coisa, porque existem marcas, cobranças veladas.
Meu primo não. Ele foi realmente um exemplo. Se formou e começou a trabalhar logo (não que eu não tenha começado a trabalhar cedo, mas ele não começou a trabalhar pra ter dinheiro pra encher a cara e comprar sapatos, essa sou eu) pra ajudar o pai. Eu sei disso porque ele disse isso pra mim, umas quinze horas antes de morrer, pra ser um pouco mais exata. Ele estava feliz porque estava gostando do trabalho e que ganharia bem e que finalmente poderia retribuir tudo que o pai investiu nele. Nisso eu só estava pensando em comprar uma latinha de cerveja antes de pegar a estrada e nem dei muita moral porque né, ele sempre foi certinho e eu sempre fui o morango podre da caixa, aquele que está estragado e que se alguém não tomar uma providência vai acabar estragando os outros morangos, que podem nem ser tão grandes nem tão gostosos quanto ele, podem ser uns moranguinhos sem graça, mas que se estiverem muito perto do morango estragado vão estragar também.
Aí que umas quinze horas depois, assim que a bomba caiu na família toda outra bomba caiu na minha cabeça.
Agora estou sozinha nessa de ser o exemplo, agora sou obrigada a ser alguém, agora sou obrigada a mudar de vida e fazer as coisas direito, agora sou obrigada a dar um pouquinho de orgulho pra minha família. Nisso eu estava tendo uma crise de choro e muita gente que foi chegando pensou que era por causa do meu primo, quem me conhece estranharia o estado que eu fiquei, mas eu estava no estado que estava por isso, porque assim como a ficha da morte dele caiu a minha ficha de 'agora estou sozinha nessa de ser o exemplo e tenho que mudar minha vida toda' caiu junto.
Veja bem, então eu era uma pessoa de 30 anos que nunca construiu nada na vida, graduada em Turismo e nem sei o que é turismo nem pra que serve, quase especialista em gestão de empreendimentos gastronômicos (eu disse: quase) e que nunca tinha trabalhado com isso também, professora de inglês numa escolinha com cem alunos no máximo e ganhando muito mal porque eu 'estava cansada' e 'não queria me estressar' e 'preciso relaxar um pouco porque minha vida ano passado foi dura demais', morando com minha mãe e saindo já há algum tempo com um cara não exatamente disponível no momento. Perceberam o problemão que eu tinha?
Pra quem não percebeu, tia Lilly desenha.
Eu tinha que:
1.Fazer um curso que desse orgulho pra minha família e me fizesse não me achar o cocô do cavalo do bandido que eu estava me sentindo;
2.Parar de ser preguiçosa e de ficar inventando desculpas pra não trabalhar mais.
2.1 Porque eu já tinha descansado bastante do meu ano anterior que foi realmente difícil;
2.2 Porque já que moro com minha mãe nada mais justo que ajudar nas contas da casa.
3.Terminar esse relacionamento urgente.
E eu agi? Não, eu fiquei só pensando em como fazer tudo isso, como mudar toda essa vida de erros.
(momento clichê mode on) Mas a vida é uma caixinha de surpresas (momento clichê mode off).
Muito pouco depois da morte do meu primo eu deixei de ser a filial e virei a oficial (problema terminar o relacionamento resolvido, só que ao contrário, na verdade aconteceu foi um 'assumir esse relacionamento'), isso sem eu sequer imaginar, eu nem percebi, pior, além de não perceber a ficha ainda demorou tipos meses pra cair e às vezes eu acho que nem caiu ainda.
Tá, aí que pouco depois disso acontecer saiu o resultado do vestibular (antes da morte do meu primo eu tinha prestado vestibular pra Direito -pra satisfazer minha mãe- com segunda opção pra História -pra satisfazer a mim). Passei pra História, fiz a matrícula mas menos de uma semana depois passei na terceira chamada pra Direito. Comecei a cursar e descobri que gosto do curso e estou me esforçando pra me dar bem.
Nisso, minha chefe me deu um aumento e mais, apareceram alguns alunos particulares que olha... melhorou muito minha situação financeira caótica.
Perceberam como não é fácil? Eu queria mudar, estava disposta a mudar mas o mundo conspirou para que tudo mudasse da melhor maneira possível, só que exagerou.
Agora eu não tenho mais tempo pra nada, estou de saco cheio do meu trabalho porque minha chefe não entende que eu preciso estudar e reclama quando estudo lá. Acordo de madrugada quase todos os dias da semana pra estudar porque estou realmente me esforçando pra me dar bem em Direito, já que minha família adorou isso e está toda orgulhosa de mim. Meu namoro ia bem até eu ficar cansada demais, agora eu já nem sei a quantas anda, sei que eu não sei pedir colo e admitir que estou exausta e isso acaba sendo um problema porque é uma luta de egos imensa. Isso e a inveja que sinto dele por ele ter tempo pra descansar e eu não. Mas o pior de tudo é que foi tudo tão rápido, tudo tão novo e tão de repente que eu não consegui administrar isso muito bem.
Na verdade eu não consegui administrar isso nada bem.
Ontem eu tive um surto por causa de uma piranha de cabelo.
Sim, por causa de uma piranha de cabelo.
Mas era tanto cansaço, tanto stress acumulado, tanta vontade de só sentar e chorar durante dias -porque é isso que faço quando estou cansada- e não ter como fazer isso por causa da minha rotina sem tempo pra chiliques, que acho que perceber que perdi minha piranha (aquela que eu gosto que não quebra e custa trinta reais) foi demais, foi o estopim para que eu explodisse. E eu explodi. E sei que as consequências já começaram a acontecer.
E tudo que eu mais queria agora era colo. Não importa de quem, pode ser do tiozinho do picolé que tá passando ali na rua e fazendo aquele barulho chato com aquela buzininha insuportável.
Só que eu não sei pedir.
Quando vou aprender a admitir que eu posso até fingir que consigo carregar o mundo nas costas, mas que tem uma hora que preciso parar e fazer cara de cachorrinho?
Eu sei a resposta.
Nunca.
E é exatamente por isso que voltei a escrever. Primeiro porque aqui falo tudo que me incomoda e segundo porque aqui eu não tenho vergonha de dizer que eu fraquejo sim. Porque acho que prefiro ser tachada de louca a ser tachada de fraca.
É isso que acontece com os morangos grandes, bonitos e gostosos que começam a estragar -eu, no caso.
Alguém -no caso, o mundo- toma a providência de tirar da caixinha pra não estragar os outros morangos e resolve fazer um bombom com ele. Corta a parte estragada e enche de uma massa gostosa em volta -no caso a vida que estou tendo, que eu não deveria reclamar- e cobre tudo com chocolate -que é o meu problema de não saber admitir que preciso de colo e de não aceitar assumir que as vezes sou fraca sim.
Aí que colocam esse bombom na geladeira e um dia algum desavisado vai lá e vê aquele bombom de morango grande e bonito dando sopa e come. Só que apesar de terem cortado a parte estragada, a bactéria (ou fungo ou sei lá o que estraga os morangos) ainda ficou lá, grudada no morango e ele continuou estragando, deixando o gosto ruim, estragando o creme que está envolvendo o morango mas tudo isso embaixo da casca de chocolate, que sempre vai dar a impressão de perfeição. Aí alguém da uma mordida, não gosta e joga fora. Porque é isso que acaba acontecendo com os morangos estragados. Acabam no lixo.
No caso o lixo é esse sentimento de saber que estou fazendo meu possível e às vezes um pouco do impossível pra dar conta do recado e mesmo assim não dou, porque não me dou o direito de respirar um pouco, de falar: 'ei, deixa só eu ficar aqui deitada no seu colo, só um pouquinho, até eu achar que as coisas valem a pena de novo'.
Teria sido melhor se o mundo tivesse ficado quietinho no cantinho dele e me deixado apodrecer em paz, porque me cobrindo com chocolate ele só aumentou o problema. Fez o morango pensar que tinha jeito, que poderia ser útil, mas não, só causou um desgosto desnecessário pra quem pensou que aquele bombom seria delicioso. Porque é assim que o mundo age, sem pensar no sentimento do morango nem na boca de quem vai comer o bombom que prometia delícias e acabou sendo uma decepção.
9.4.11
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